Agrotóxico / Consumo Consciente / Orgânicos / Policultivo

Dando um basta à agricultura orgânica

Para aqueles capazes de prestar um mínimo de atenção no que se passa a sua volta, afirmar que a atual agricultura tem sido um grande mal para a humanidade não será nenhuma surpresa. Já não é nenhuma novidade falar em câncer causado pelo excesso de herbicidas, fungicidas, defensivos, adubos e assim por diante.  Não é, tampouco, necessário falar sobre o desmatamento, efeito estufa, assoreamentos ou desertificação. Já estamos (ou deveríamos estar) a par de que estamos destruindo o planeta em proporções jamais vistas. Ótimo, tudo isso pode ser, como já foi, abordado em outros artigos. Para hoje quero ir direto para o passo seguinte, passo esse que apesar de parecer ir à direção correta faz apenas um pequeno desvio para nos levar ao quase inevitável colapso.

O desvio do qual eu falo é a chamada agricultura orgânica. Como assim eu ouso falar mal de algo tão benéfico? Posso imaginar as caras feias da meia dúzia de pessoas que lerão esse texto. Pois bem, vamos à explicação.

Para começar, quero deixar bem claro que nada do que eu planto entra em contato com qualquer insumo químico. A alimentação proveniente de produtos orgânicos é a única forma não nociva que eu conheço de me fornecer energia e sabor sem prejudicar a minha saúde.

Certo? Um pouco melhor? Ok. Então vamos direto ao ponto. O que eu gostaria de chamar a atenção é de como os produtores orgânicos estão se apoiando nos mesmos fundamentos que a agricultura tida como “convencional”. Ao invés de inseticidas químicos são usados métodos naturais de matar os insetos, ao invés de fungicidas, o fumo de corda, ao invés disso usa se aquilo. Copiamos as produções extensivas, as monoculturas, tudo muito natural, muito orgânico. Muito bonito, talvez a intenção seja boa, provavelmente o seja. Mas… é apenas um desvio.

Mas como produzir então? O segredo está em fundamentar a sua produção (e que tal a sua vida?) em pilares diferentes daqueles que já demonstraram estarem fadados a desmoronar. Após os meus primeiros contatos com as bases da permacultura pude entender que podemos produzir, e produzir bastante se assim desejarmos, sem apelar para o benchmarking* da agricultura usual.

Não há nenhuma fórmula mágica para tal, mas há alguns fundamentos básicos e essenciais para qualquer um, independente do ambiente. Para começar não adianta querer produzir grandes áreas de uma só cultura, diversidade gera estabilidade. Devemos buscar sempre recriar um ambiente o mais próximo do que a natureza já provou funcionar. Consorciando o máximo de culturas possíveis, intercalando árvores com produções de hortaliças, inserindo animais, em suma, mantendo um sistema coerente. Em um sistema em equilíbrio não haverá necessidade de substituir as técnicas aplicadas na agricultura ”convencional”. O próprio sistema proverá o equilíbrio necessário. E quando uma cultura sofrer por alguma doença você verá que há ao redor uma infinidade de opções que não deixarão de prover o seu sustento.

Chegar nesse equilíbrio é certamente um desafio, principalmente se o seu vizinho insiste em pulverizar o terreno ao lado do seu a cada duas semanas, mas a experiência certamente é possível e gratificante.

*Técnica amplamente disseminada nas academias de administração que consiste basicamente em copiar aquilo que funciona em empresas concorrentes.

Parte 2

 

E que tal ir um pouquinho além? Já chegamos à conclusão de que não devemos nos apoiar em  fundamentos equivocados. A agricultura extensiva surgiu em conseqüência de um mundo voltado exclusivamente para o consumo. Para consumir tudo aquilo que fomos treinados a acreditar que precisamos é realmente impossível escapar da produção predatória como a temos hoje. Estamos inseridos em um sistema desequilibrado em escala global, e se quisermos produzir coerentemente não podemos esperar desfrutar daquilo que surgiu em decorrência do incoerente.

Traduzindo. Se eu quiser tirar, da minha produção orgânica, o dinheiro necessário para trocar de carro todo ano, para fazer compras no shopping e beber coca-cola sempre que sentir sede eu sou um idiota.

Enquanto produzirmos com o intuito de consumir, consumir e consumir, nós estaremos fadados ao fracasso. E nisso eu englobo não apenas os produtores rurais, qualquer pessoa se enquadra nisso.

Por que produzir então? Que tal pelo prazer de saber que estamos contribuindo com o bem estar daqueles que amamos e que se beneficiarão da comida que plantamos? Que tal pelo gostinho de acordar ao som de dezenas de pássaros cantando nas árvores ao seu redor? Que tal poder perceber que a vida é muito mais do que aquilo que você pode comprar? Que tal poder perceber que quando você não é escravo do consumo te sobra mais tempo para pensar, para brincar e para amar.

Que tal?

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3 thoughts on “Dando um basta à agricultura orgânica

  1. Olá Ricardo,
    Ainda não havia lido minhas idéias de forma tão exata!
    Parabéns pela sua visão.
    Abraço,
    Karen

  2. Pingback: Tô meio cansada de … « CHÁCARA BOA VISTA

  3. E o Natal? o que me dizem do Velho Noel Capitalista?
    Tava reparando, caraca, todo mundo dois três meses antes do natal já se mobiliza para, como dizem mesmo? – ‘Aquecer a economia’.
    Vamos promover uma campanha, algo do tipo
    Neste Natal diga não ao consumismo! Queremos um Natal Permacultural! Faça você mesmo seu presente de Natal!

    E tenho dito.

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