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Ainda sobre a viagem

Como alguns de vocês já devem saber, eu passei esse último mês em mais uma viagem de bicicleta explorando cantos para mim até então desconhecidos desse nosso país. Uma viagem incrível, sem dúvida passarei muito tempo lembrando, citando e contando causos e casos desse mês. Por hora quero apenas destacar algumas coisas menos felizes que vivi durante essa trajetória. Deixemos de lado as paisagens lindas e as pessoas maravilhosas que eu tive o prazer de conhecer e vamos focar o quase onipresente desprezo pela vida.
Quando alguém, para puxar assunto, fala que com certeza eu vi muita coisa durante esse mês logo me vêem à cabeça as centenas de animais atropelados no asfalto pelos quais passamos: cobras, lagartos, tatus, todos os tipos de pássaros, cães de todas as cores e tamanhos, sapos, jaguatiricas, uma capivara, um gato do mato… devo estar esquecendo alguns mas acho que já deu para pintar o quadro geral não é?
Daí surge a pergunta: “Para que essa pressa tão destrutiva?” Queremos chegar cada vez mais rápidos e não nos damos nem mais o trabalho de frear para evitar tirar a vida de alguém outro. Sem contar as rodovias(grande parte das quais estavam sendo duplicadas) que cobrem cada vez mais o nosso solo, solo que já não produz mais nada além de acidentes, de engarrafamentos, de stress e brigas, solo condenado a ser mais uma rodovia, para que possamos passar nossas férias confinados em um hotel a 600km de casa e para que possamos transportar nossas monoculturas para serem envazadas no outro lado do país e voltarem às nossas mesas custando seis vezes mais do que quando saíram da nossa cidade.
E enquanto nos exprememos no canto do acostamento para não sermos atropelados, atropelamos nós mesmos, não animais, mas fraldas, centenas de fraldas sujas, fraldas descartáveis(descartáveis? o que quer dizer isso?). Eu fico imaginando, ao mesmo tempo que alguém se deslumbra com a paisagem das serras catarinenses esse alguém joga, pela janela, a fralda que o seu filho acabou de sujar. Nada contra o cocô (merda é vida, mas a vida não é merda), mas as fraldas? será mesmo que não há um lugar melhor do que a beira do asfalto?
Além disso, outra coisa que eu vi muito mais do que eu gostaria foram os aviões pulverizando os campos de arroz. Arroz é saudável, minha mãe sempre dizia, mas depois de ver a quantidade absurda de veneno jogado nas plantações fica muito difícil de acreditar nisso. E não são só as plantações que recebem o tão valorizado líquido, o veneno se espalha muito além dos campos, os olhos mais atentos logo percebem as folhas amareladas das árvores ao redor, o cheiro que paira na região dos pampas gaúchos oriundo dessa prática incomodam. Incomodam e fazem pensar: “Que droga é essa que nós estamos jogando na nossa comida?”
Passamos por várias casas, famílias das mais diversas origens, com as mais variadas crenças, inclinações políticas e filosofias de vida. E qual não foi a minha surpresa ao perceber que em todas as casas pelas quais passávamos havia uma televisão ligada. Ponto para a última família que nos acolheu e que durante os três dias não mencionou sequer a pequena televisão esquecida sobre a prateleira. Orgulhoso dos meus tios.
E por último mas não menos desastroso é reparar no espanto das pessoas ao dizer que você viaja de bicicleta, de perceber que mesmo dentro das cidades em que tudo é perto é inconcebível percorrer dez quadras sem a ajuda de um motor. São raras as pessoas que se locomovem usando veículos auto propulsos(esse termo existe ou eu acabei de inventar?). É claro que ainda existem pessoas pedalando, correndo e andando por aí, até um pessoal cavalgando(nem poderia ser diferente se levar em conta que um dos estados visitados foi o RS) você ainda encontra. Mas sempre que pediamos uma informação na cidade tínhamos conversas como:
– tem alguma bicicletaria na região?
– é só seguir essa rua, mas é longe para ir de bicicleta.
– longe?
– seis quadras.
– moça, de casa até aqui já foram mais de 1000km.
– vocês são loucos.
Tudo bem, podemos até ser loucos mas não seria loucura também essa preguiça burra de levantar a bunda e se mexer um pouco?
É legal, é saudável, não polui, você encontra pessoas, conversa, vê coisas, sua um pouco…
…”Vocês são loucos”…

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