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Indo às compras

 Comprar é muito mais do que apenas adquirir. Comprar é financiar, comprar é apoiar, é legitimar.

Não quero propor aqui que paremos de comprar, que queimemos nosso dinheiro e optemos pela pobreza. Não tenho nenhuma pretensão de me tornar um novo São Francisco ou qualquer coisa do gênero. Mas há sim uma proposta. Antes, algumas considerações.

 Quando deixamos nosso dinheiro no caixa de um supermercado estamos de fato comprando os produtos que nós colocamos na cesta de compras, mas, além disso, nós estamos financiando o mercado em questão, estamos legitimando o modo como eles tratam os seus funcionários e o modo como eles tratam o mundo. Quando compramos no Wall mart, por exemplo, estamos dando o nosso dinheiro para uma mega corporação que não demonstra comprometimento nenhum com nada que não seja o lucro e o crescimento predatório da companhia. Se, no entanto, optarmos por comprar em feiras ou mercados locais, estaremos ajudando a fortalecer a economia local, estaremos dando dinheiro para o nosso vizinho, para uma pessoa como nós, isto é, alguém que trabalha pelo sustento e não pela opulência. Sem contar que quando compramos em níveis locais nossos vizinhos terão mais recursos para comprar quando eles precisarem, e nesse caso, eles poderão comprar os seus produtos e serviços. Simples não?

 O mesmo acontece com cada produto na sua cesta. Você pode optar por um óleo de soja de origem transgênica, nesse caso você está automaticamente dizendo sim a Monsanto, aos agrotóxicos e as patentes de seres vivos só para citar alguns pontos. Quando optamos pelo tomate orgânico do produtor local, podemos até pagar mais caro, mas sabemos que ele não vem impregnado de defensivos químicos, sabemos que ele amadureceu naturalmente, e que por mais que ele não brilhe, ele tem sabor.

 Se ficamos em dúvida entre duas mercadorias, por que não observar onde elas são produzidas? De nada adianta deixarmos o nosso carro em casa e irmos trabalhar de bicicleta se continuamos comprando produtos que viajam uma média de 1500 kms até chegar nas prateleiras dos mercados.

 Agora você pode argumentar que produtos orgânicos são mais caros, que é mais cômodo ir ao mercado ao invés de ir à feira ou que não é responsabilidade sua controlar como as empresas tratam seus funcionários.

 Pois bem, para começar devemos esquecer o hábito de levar em consideração apenas o preço etiquetado nos produtos e começarmos a observar os reais custos dele. Vamos observar também o que é feito com o nosso dinheiro. Eu dou o meu dinheiro ao meu vizinho que cria suas galinhas soltas no pátio e que trabalha juntamente com a sua família ou eu prefiro dar ele à perdigão que escraviza seus produtores e soca antibióticos nos frangos produzidos de forma doentia?

 Quanto a ser cômodo ir ao mercado eu posso afirmar com certeza que é apenas um velho hábito, de comodidade não há nada lá. As filas, a impessoalidade, as tentativas de fazer você consumir tudo o que você puder… tentativas? As filas para o caixa cercadas de guloseimas estão mais para lavagem cerebral do que para tentativas.

 E quanto ao tratamento que uma corporação da aos seus funcionários é sim responsabilidade sua. Lembre-se, comprar é financiar e é legitimar.

 Agora à proposta. Muito simples, se resume ao seguinte: Sempre que comprar leia o rótulo, e pergunte como aquele produto foi produzido, quantos quilômetros ele percorreu para chegar até as suas mãos, qual o impacto que a produção desse produto implica ao mundo e qual o impacto dele na sua própria vida. Pergunte também nas mãos de quem vai parar o seu dinheiro obtido através de muito esforço. O que será feito dele?

O que eu estou financiando?

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5 thoughts on “Indo às compras

    • Quando o autor do texto fala em ajudar os africanos comprando o café de lá fica bem claro a incompatibilidade da idéia que eu expus aqui. Reforçando mais uma vez, devemos estimular a economia local, não sou a favor de enfiar café para atravessar meio mundo e além disso não creio que comprar café africano vá ajudar os africanos.
      No mais, não encontrei muita relação em todo o discurso anti esquerdista dele e o meu post. Mas fico aberto à explicações.

      • É, eu sei que o post dele não tem muito a ver, publiquei mais pelo primeiro parágrafo, onde ele se refere ao “rótulo verde” das coisas.

  1. Um tal de William James disse “o homem nunca tem o bastante sem ter em demasia”.
    Me parece que a única saída é garantir nossa sobrevivência como espécie civilizada ou o que nos resta disso e não retroceder a um aglomerado de tribos guerreiras, que foi um estágio de nossa história evolutiva. Ou deixamos de lado todas as diferenças, ou estamos condenados a enfrentar guerras tribais quando faltar alimento. E vai faltar! Agora vamos imaginar que existe um bote salva-vidas para os refugiados, mas o capitão e os oficiais do navio precisam decidir quantos devem se salvar. Quem terá permissão para subir a bordo e quem deverá ficar para trás. O mais justo seria uma loteria, mas o senso comum descarta uma seleção tão simples. Os enfermos, os aleijados e os velhos teriam de ficar para trás… Nos navios, costumava-se dar prioridade as mulheres e as crianças, mas alguns homens seriam necessários – qual seria a proporção certa de sexos?
    Precisamos não apenas sobreviver, mas continuar civilizados e não degenerar para cair sob dominio de mafiosos em que alguns líderes se promovem como déspotas militares. Precisamos tomar medidas locais efetivas e acima de tudo, garantir suprimentos de comida.

  2. Quanto a banalidade do rótulo verde eu concordo em gênero e grau. Quando, só pra citar um exemplo, até a coca-cola veste a roupagem do sustentável é porque a coisa já se perdeu pelo caminho.

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