Coletividade / Consciência / crise civilizatoria

Reflexo de vento

Hoje pela manhã, quando todos em minha casa estavam acordados, fiz uma objeção quanto a qualidade de nossa alimentação, vendo que em minha casa, como a de qualquer outro cidadão, possui hábitos alimentares comuns, possui uma alimentação baseada na fácil disponibilidade, custo benefício bom e palatividade apreciada por nós. Basicamente, consumimos muito carboidrato, gorduras, sódio, proteína animal, legumes e verduras em pequena quantidade, além de frutas. A todos, de uma maneira geral, parece uma alimentação da qual não se deve reclamar, afinal não são todas as pessoas que possuem o mesmo. Quando fiz minha afirmação, que deveríamos mudar nossos hábitos alimentares, minha irmã me perguntou – Porquê você está nessa “moda” de comida saudável? O que você vai ganhar com isso? Longevidade? Saúde? e ainda utilizando o argumento de que a morte pode acontecer a qualquer momento, fazendo com que de nada valha uma alimentação saudável. Tentei argumentar com alguns discursos clichês, sem qualquer efeito, confesso que fiquei em dúvida sobre meus motivos e passei um longo tempo me questionando sobre o breve comentário da minha irmã.

Não entendo os motivos que me levaram a uma vida contrária ao gosto comum, talvez por gostar de pensar e sonhar em ser livre para ser feliz, pensar me leva a crer que é uma ilusão o que vivemos, são amarras que criamos para nós. Uma sociedade que vem sendo moldada por alguns durante os séculos, submetendo os alienados à vontade de reis, e chimpanzés idolatrando simbologias que afirmam a sua inferioridade perante aos semelhantes com mais bananas, nações afirmando seus valores em cima de “papel”, escravizando e predando semelhantes com algo tão menosprezável. Criamos para nós mesmos uma estrutura social piramidal, sólido perfeito que exige que todas as partes fiquem encaixadas. Esse povo chegou a essa forma pois não tinham tecnologia e conhecimento suficiente para criar algo diferente, assim adotaram essa arquitetura. Nossa sociedade, não sei se por coincidência ou acaso, moldou-se exatamente como há 5000 anos, empresas, governos, escolas, sempre hierarquizados, constituindo a forma piramidal de interações humanas, esse sistema não permite flexibilidade, submetendo todos que dele dependem às regras comuns, não tolerando diferenças e desenvolvimento próprio. Sistema predatório que consume recursos sem pudores, o dinheiro é a chave para ter acesso a todos os recursos disponíveis, principalmente humanos, o erro é pensar que trocar dinheiro invisível que pode ser criando até o infinito por recursos que possuem um limite findável durará para sempre, acreditamos que nossa época de pujança e festa para os micos é perpétua, fato que pode ser colocado a prova olhando para historia, e sabemos que o auge de nosso sistema se foi com os anos e o petróleo, estamos aguardando o esgotamento para depois resolver o caos. É triste pensar que iremos viver sempre da mesma maneira, isso nunca aconteceu e jamais irá, sempre fomos obrigados a mudar e evoluir para perpetuar a espécie, pensamento que por muitos estudiosos contemporâneos nem sequer foi cogitado e continuam pregando para os infelizes que estamos seguros e nada pode abalar a inigualável hegemonia humana como conhecemos.

Minha indignação com a sociedade surge em olhar crianças sendo massacradas por elas mesmas, sendo más, pessoas cada vez mais alienadas e preocupadas em comprar produtos que elas mesmas não tem ideia de como poderão ser úteis. Em ver as diferenças sendo temidas e tratadas com agressividade. Ao mesmo tempo, vejo as mesma pessoas que lutam para defender seus mundos com tanta agressividade serem pessoas infelizes, zumbis indo para seus trabalhos, pessoas depressivas, proliferando inveja e cobiça entre os viventes ao seu redor. Para mim, é óbvio que a felicidade está longe donde estou, tenho pena de todos com quem converso, sinto raiva dos que me agridem por pensar diferente da massa comum e me sinto bem por saber que não preciso me submeter às pirâmides, posso viver nas curvas e nos planos infinitos, criar irrealidade e formas diversas. Gostaria que o mundo compartilhasse do mesmo desejo, apenas ser livre para quem quer que seja, sem cor, gosto ou forma. Todos podem apenas viver sem o mal escravo, sem ser o carrasco do outro.

Por um tempo, odiei os humanos e via-os com nojo, repudiava seres tão inferiores, como podiam viver feito animais?, comendo lixo e achando que era luxo. Agora, penso um pouco diferente, coloco-me no lugar de tantos outros, vejo como sofrem e são iludidos, sinto compaixão e quero ajudá-los. É por isso que escrevo aqui. A nossa sociedade como conhecemos está no fim, isso é irreversível e todos já sabemos, quanto mais protelarmos os preparativos para a mudança, mais pessoas iram morrer, talvez isso seja bom, levando em consideração que um organismo biológico como somos multiplica-se e causa tantos danos a milhares de outros ecossistemas, pode ser considerado uma praga, pragas devem ser eliminada pelo bem comum.

Não tenho certeza do que se reserva para nós, mas espero que estejamos prontos para as dificuldades vindas na décadas futuras, não desejo nosso extermínio e sim nossa evolução a um estágio que quebraremos os paradigmas modernos, como as cidades, como a relação de predador e consumo, com a vaidade que guia os humanos e geram os pecados capitais. Quero enxergar ‘Deus’ novamente, em nosso tempo ele foi apagado e esquecemos os conhecimentos ensinados nos princípios civilizatórios, somos incapazes de interpretar e recolocar simbologias e ensinamentos milenares, criamos tudo e fazemos tudo da forma humana, acreditamos sermos onipotentes em relação ao mundo e espaço, julgamos e agimos com probabilidades, achando que é a real verdade. Somos seres arrogantes perante ao universo e à Terra. Tenho certeza de que não podemos competir e dominar forças de bilhões de anos.

Minha irmã não compartilha dos mesmos pensamentos que eu, seus conceitos de mundo seguem em outra direção, olha as transformações que estão acontecendo com repudio, eu enxergo sua atitude como comum a todos outros seres, sente medo de perder seu conforto, medo de aceitar que a verdade pode mudar, que não temos controle de nada e estamos na dependência do mundo, aceitar que fazemos parte de uma rede de conexões que envolve todos os organismos existentes e que precisamos integrá-la e respeitar seja lá o que for, para constituirmos um habitat que respeite e optimize todas as diferenças existentes e as que estão por vir. Através desses pensamentos, enxergo que comendo uma comida saudável estarei ajudando muito o mundo e a mim mesmo, além da saúde e qualidade de vida, também iria estimular uma economia inteira que produz alimentos de qualidade.

A produção desses alimentos contribui para a existência de outros organismos que são indispensáveis para a nossa sobrevivência e para o equilíbrio natural, algumas comunidades possuem uma interação de cooperação com o meio em que vivem, diferente de 99% das pessoas do planeta que apenas consumem o espaço ao seu redor e, em alguns casos, vão muito além de suas fronteiras, não é a toa que somos denominados consumidores. Comendo alimentos saudáveis eu estaria auxiliando um movimento que deseja um mundo melhor, em que não seriamos obrigados a comer ração para sobreviver, talvez não precisássemos ir tanto ao médico, nem consumir tantos remédios, nem passar a vida sendo escravos de empresas sem nunca conhecermos o que realmente é bom.

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2 thoughts on “Reflexo de vento

  1. Marco, preciso confessar que tive um calafrio muito gostoso enquanto lia esse texto, claro que a trilha sonora do Tom Waits ajudou um pouco… mas disse tudo, acho que podemos encerrar os textos do blog… concordo em gênero e grau.
    E seja lá o que o futuro nos aguarda somos mais fortes e mais divertidos juntos.

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