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A saga dos Menonitas

PELO MUNDO, EM BUSCA DE UM DESTINO

Peter Epp (in memorian) senta-se no sofá, inclina-se para frente, apoiando as mãos na bengala e sobre ela descansando o queixo. Então seu rosto perde o sorriso com que vinha mantendo a conversa, os olhos líquidos, quase centenários, debaixo de pálpebras semicerradas, deslizam para as funduras do tempo, um tempo que só ele alcança com os braços de sua memória privilegiada. Omsk, sul da União Soviética, quase fronteira com Cazaquistão, 1930. O pai perdera seus 300 hectares e 19 cavalos para a coletivização da agricultura. Trabalhava agora num colcoz, cooperativa socialista típica do modelo soviético, para sustentar mulher e seis filhos. Peter tinha 17 anos.

Um dia o pai resolveu fugir. Então os Epp e três outras famílias embarcaram clandestinamente no trem que vinha de Moscou em direção a Vladivostok.  “Não tínhamos nem bilhete, nem documentos. Meu pai deu dinheiro para um guarda e ele nos escondeu numa cabine”, lembra-se Peter. Desembarcaram 7.500 quilômetros depois, pouco antes de Vladivostok, na região do rio Amur, fronteira com a China. No dia 16 de dezembro de 1930 deixaram a União Soviética. Guiados por um chinês, atravessaram as águas congeladas do Amur, a 40 graus negativos. Todos menos o pai que morrera dez dias antes.

Peregrinação

Nos próximos dois anos os Epp peregrinaram em busca de um destino, sem documentos e com minguados pertences. Passaram por Xangai, Hong-Kong, pela antiga Saigon. Com ajuda do Comitê Central dos Menonitas, sede nos Estados Unidos, singraram aqueles misteriosos mares asiáticos, o Amarelo, o grande mar da China, o mar da Arábia, entraram no Golfo do Aden, cruzaram o mar Vermelho, passaram pelo canal de Suez e navegaram pelo Mediterrâneo até pó porto de Marselha. Dois anos escondendo-se, viajando, tentando sobreviver. De Marselha foram de trem até o porto de Le Havre, noroeste da França. “Tomamos café em Paris”, recorda-se Peter. Do Le Havre embarcaram para Buenos Aires e, por fim, chegaram ao destino, em 1932: o longínquo e escaldante Chaco paraguaio, com seu calor de 45 graus e índios pouco amigáveis.

Suportaram o Chaco por cinco anos, plantando algodão, batata-doce e feijão. Depois se transferiram para o Leste paraguaio, a 50 quilometros da fronteira brasileira. Dezesseis anos depois mudaram-se para a jovem Colônia Witmarsum. Como os demais, chegaram pobres. Peter Epp alugou uma propriedade e comprou 12 vacas e um cavalo a prestação. Começou a produzir leite. Trabalhou duro na produção de leite e no plantio de grãos, prosperou. Adquiriu mais duas chácaras e um terreno, que distribuiu aos cinco filhos. Por quatro vezes visitou a Alemanha e, por três, os Estados Unidos. Em 1991 perdeu a esposa Helena Kliewer. Em 2000, aos 86 anos, casou-se com Anna Rempel Ekk, oito anos mais moça, uma das primeiras enfermeiras de Witmarsum. Dirigiu automóvel até os 93 anos. Bem humorado, pensamento positivo, não há em Peter Epp nenhum traço de amargura pelas dificuldades que a vida lhe impôs. Ri dos percalços, preparando-se para comemorar o centenário.

Escrito pelo Jornalista Luiz Manfredini

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One thought on “A saga dos Menonitas

  1. Texto impressionista que não corresponde totalmente com a realidade. Mas tem validade como testemunha entre tantas histórias de pioneiros.

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