Colônia Witmarsum

Fazer também é fácil, basta querer!

Ontem eu li que “falar é fácil”. Hoje digo que fazer também é, basta querer.

Acordei inspirado para escrever um pouco sobre aquilo que venho aprendendo nessa jornada, como filho do arquiteto do universo. Em verdade vos digo que o meu coração se encheu, mais uma vez, de tristeza quando fomos agredidos em uma dessas discussões que promovemos sobre o atual modelo da agricultura convencional – o qual vem causando irreparáveis danos sociais, culturais, ambientais e econômicos – sobretudo porque, nessa discussão fizemos menção da relação de Deus com este modelo de agricultura convencional.

Assim, desejo expressar meu humilde ponto de vista sobre nossa responsabilidade como seres criados a imagem e semelhança de Deus – pensantes, criativos, generosos, amorosos e cuidadosos nos detalhes, habitantes desse planeta fabuloso onde fomos colocados para observar, proteger e cuidar. Ao procurarmos na Bíblia Sagrada, percebemos que essa narrativa da relação do homem com a terra inicia nos primeiros versículos, bem como finaliza a mesma.

Entretanto, antes de ir mais a fundo na questão espiritual gostaria de contar um pouco a história da minha família. O meu avô, o Sr. Peter Ewert, foi o terceiro morador que se estabeleceu na comunidade de Witmarsum e tenho muito orgulho de dizer que ele lá chegou com uma mão na frente e outra atrás, e conquistou com trabalho árduo e muito suor uma pequena propriedade para cada um de seus 5 filhos. Este grande homem, cuja descendência é menonita, em toda a sua trajetória agrícola nunca precisou usar qualquer tipo de insumo agrícola para produzir o seu alimento. A principal coisa que admiro nos meus avôs e seus contemporâneos é que eles eram auto-suficientes, capazes de produzir quase todo o alimento e energia que necessitavam coisa que, hoje em dia eu prezo muito em fazer também. É claro que ele encheu os bolsos de dinheiro rapidinho, porque trabalhava muito, respeitando as pessoas e a terra, e, principalmente porque ele não dependia de inputs energéticos que a atual agricultura necessita para produzir, ou seja, utilização de adubos e fertilizantes químicos, combustível para maquinaria pesada, inseticidas, herbicidas e afins, etc. Sem contar que, naquela época existia uma tradição sensacional de escambo e ajuda mútua, na qual se construíam casas em mutirões e os filhos ajudavam, desde pequenos, com atividades domésticas ou mesmo na roça, e ninguém chamava isso de trabalho infantil.

Bom, de qualquer forma os tempos mudaram, a escala de produção mudou, a necessidade de mercado mudou, e aliado a isso veio a competitividade e com eles uma infinidade de problemas novos foram surgindo, entre eles, doenças de saúde, pragas nas plantas e solos cada vez mais exauridos com as práticas insanas que emergem com a Revolução Verde. Para aqueles que não sabem, sendo bem simplista, a Revolução Verde nada mais é que a inserção de sobras de guerra nos mercados, tanques viram tratores, o que amplia a força de trabalho, insumos de armas químicas como nitrogênio viram adubos, etc. Ou seja, o interesse de alguns em lucrar mais rápido, seja nas empresas, no comércio, levando o agricultor a produzir mais e mais, com o interesse do homem em lucrar mais rápido e explorar a terra usando todo pacote tecnológico oferecido por grandes corporações.

Se por um lado alguns lucraram, e ainda lucram muito ao se apropriar desse modelo de agricultura, por outro lado, a grande maioria só perdeu. Existem perdas que devem entrar nesta equação, pois perde-se saúde, perde-se terra, perde-se biodiversidade, perde-se dignidade… e ai voltamos ao ponto inicial, com a pergunta: e a espiritualidade?

É aqui que eu queria chegar, a saber, como cada um vê sua relação com Deus ao se perder a relação de respeito e integridade do homem com a terra? Será que Deus é deixado de lado no momento que o homem resolve fazer o papel de Deus e começa a querer controlar a vida, os genes, o clima?

É lógico que nesse sistema agrícola intensivo e desequilibrado surgem pragas que demandam o uso de veneno.

Essa é sem dúvida, a maior das contradições para qualquer indivíduo que se quer como cristão diante de um mundo onde milhares de pessoas morrem de desnutrição, onde milhares vivem em extrema pobreza, onde o planeta vive a beira de um colapso ecológico, graças à ganância e ostentação de um modelo social consumista.

Mas, claro que a justificativa sempre será que eles fazem essa agricultura porque aprenderam assim e precisam de alguma maneira ganhar um dinheiro para ao menos dar oportunidade aos filhos estudarem. (Como assim aprenderam a fazer agricultura assim? Temos milhões de anos de agricultura natural e menos de  meio século de Revolução Verde?!)

Fico me perguntando que mundo pretendem deixar para seus filhos? Ou então que filhos estão deixando para este mundo?

No mais, para mim nada justifica usar o pacote tecnológico da Revolução Verde pensado pelo capitalismo. Menos ainda dizer que esse agricultor não tem culpa de estar envenenando meio mundo de pessoas, principalmente porque até hoje não conheci um único agricultor que não sabe o mal que causa o uso dos insumos químicos. Aquele discurso de coitadinho do agricultor porque ele é tolo e não sabe o que faz é pura balela, e fica pior ainda quando esse agricultor vai no domingo pela manhã para igreja. Veja bem, não estou julgando quem merece ou não a graça divina, tão pouco, julgando se isso é hipocrisia ou não, para mim tanto faz, estou me referindo a questões básicas de conduta ética e moral para com os ensinamentos da bíblia.  Por exemplo, no quinto mandamento bíblico diz ‘Não Matarás’ isso significa, em outras palavras, não use veneno, porque veneno mata e pior que vai matando tudo em sua volta aos poucos… Ou será que ninguém percebeu uma caveirinha nas embalagens de glifosato? Será que não se deram conta de tanta gente morrendo de câncer?

Sem me ater mais profundamente no problema apresentado, prefiro pensar nas soluções, sobretudo, no homem criado a imagem e semelhança de Deus e como pode ser tão simples e fácil buscar caminhos para se fazer outro tipo de agricultura de acordo com o propósito de Deus.

O primeiro passo é compreender que o homem pertence à natureza, isto é, olhar para a terra como nossa origem, nossa casa e nossa primeira identidade, como gente do solo, (Claudio Oliver – http://naruacomdeus.blogspot.com.br/) é reassumir tais princípios, pois somos seres formados da terra fértil (Adamá), não da argila pouco intemperizada. Somos seres do horizonte A do solo. Adamá é a matéria prima da qual é feito Adam (o ser humano), ou se preferir a versão latina, o húmus que dá origem  à humanidade e também à humildade, posição necessária para se aproximar e tratar do assunto.

O segundo passo é tomar uma decisão e dizer NÃO ao pacote tecnológico, dizer NÃO aos insumos químicos, dizer NÃO ao veneno e dizer NÃO ao consumismo desenfreado. A partir daí basta deixar a natureza agir e produzir alimento conforme a dinâmica do ecossistema. Como sempre dizemos, observar e copiar o que a natureza faz.

Para alguns a transição de um sistema de agricultura convencional para um sistema agroecológico pode parecer terrivelmente difícil e complicado. Eu costumo dizer que esse é um dos primeiros mitos que precisam ser quebrados, porque como qualquer vício, só depende de força de vontade e fé para fazer diferente.

Para fazer agricultura ecológica basta começar, indiferente da cor, classe ou credo!

Os próximos passos são essencialmente técnicos e exigem amor pela terra e pelas pessoas. Estes passos não são como uma receita de bolo, principalmente porque cada caso é um caso. Em outras palavras, cada propriedade é diferente (solos, relevo, hidrografia, etc.) e possui objetivos de produção diferentes, portanto, são explicações que podem ser consultadas em inúmeras referências bibliográficas ou em outros post e até mesmo pessoalmente com os integrantes do Coletivo BioWit que já estão trabalhando com agroecologia.

O que proponho aqui é que, talvez seja hora de começar a colocar essa discussão para dentro dos nossos corações, juntando o que vivemos de amor, respeito e religiosidade com as nossas ações diárias. Que os espaços públicos e as nossas igrejas sejam locais de busca e troca de ideias sobre como transformar nossas ações de forma a serem coerentes a essência espiritual, de cuidar das pessoas, da terra, da vida. Que sejamos todos da comunidade um caminhar de despertar para uma nova consciência que se apresenta como ética de proteção da terra.

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2 thoughts on “Fazer também é fácil, basta querer!

  1. Caro Martin às vezes tenho a sensação que estamos em um trem que entrou em um desvio rumo ao abismo, o maquinista pulou fora, a maioria dos passageiros esta na maior festa e não sabe (ou não quer) tomar conhecimento do que esta por acontecer, e alguns poucos que tem conciencia da situação são ridicularizados, chamados de loucos, etc.
    Mas é esta pequena minoria que faz a diferença, que deve gritar, incomodar, e um dia, por bem ou por mal será ouvida. Quanto às agressões sofridas, lamentavelmente se olharmos para fatos históricos veremos o que aconteceu a todos os reformadores, como Gandhi e o próprio Jesus, só para citar alguns.
    O importante é não desistir, levantar a cabeça e seguir em frente, pois acredito que um dia este planeta dará um salto quântico, e se tornará um lugar de evolução, e não de expiação.

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