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Considerações a respeito da agricultura

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Estimados agricultores, gostaríamos de compartilhar a nossa opinião sobre o atual modelo agrícola. Nós do Coletivo BioWit somos nascidos e criados na roça, somos filhos da agricultura! Assim, buscamos trabalhar, todos os dias, com uma agricultura ética que promove a floresta, cuida da terra e das pessoas. Estamos bem fundamentados nas bases epistêmicas da permacultura e agroecologia.

Bom, em primeiro lugar, nós aqui procuramos nos alimentar da floresta. Nós fazemos o caminho inverso dessa agricultura do agronegócio que destroi que vier pela frente. Nós plantamos florestas e vivemos com alimentos em fartura, temos de tudo com agrofloresta e não precisamos de veneno, nem adubo e todas essas coisas malucas, porque nosso sistema é auto-regulado. Não há pragas – pois um elemento complementa, regula e auxilia o outro – e o solo é adubado pela própria floresta. Agrofloresta

Ou seja, nossa agricultura é fazer floresta e não derrubar ela para manter o pasto no lugar e produzir alimento, como ocorre na agricultura de monocultura. Aí escutamos os agricultores do agronegócio dizendo, “ah, mas se a gente não planta, então a cidade passa fome”. Pois é, que triste esse pensamento, afinal, temos 2 milhões de pessoas morrendo de fome todo dia, porque a monocultura em escala nunca vai conseguir alimentar as pessoas, exceto alimentar bois para uma classe favorecida, porque afinal nem todo mundo tem poder aquisitivo para  comer carne. Já a maior parte do alimento produzido no Brasil hoje, vem do pequeno agricultor familiar que planta diversidade, porque tem uma pequena roça, na qual planta de tudo um pouco e sobrevive com o que produz, embora  a grande maioria seja oprimida pelos grandes latifúndios. Nesse diálogo, como em outros, os argumentos repetem o mesmo discurso de sempre, sobre a fome do mundo e escala de produção (as tais Commodities). Ainda tem aquela velha história da dependência de grandes multinacionais e bancos que financiam, a altas taxas de juros, e comercializam os insumos agrícolas em um ciclo vicioso. Nós conhecemos muitos agricultores que foram a falência por causa disso, endividados e perderam quase tudo. Sem contar que a dignidade desses agricultores endividados fica a mercê dos bancos. O que estamos querendo dizer é que, a posse da terra tem se concentrado nas mãos de alguns grandes latifúndios e os menores agricultores se quebram porque não conseguem produzir nessa mesma escala. Logo, ficam sem margem de lucro, e com isso descapitalizados e endividados. Por fim, acabam vendendo suas terras para esses mesmos grandes produtores, que só aumentam a desigualdade social entre todos agricultores.

Não prec544160_564318080256197_369225957_nisa ser muito inteligente para perceber que a dependência de inputs energéticos (insumos agrícolas) é tão alta para produzir, que o lucro se concentra na verdade nas mãos de algumas corporações como, por exemplo: Bunge, Monsanto, Bayer, etc., pois são donas das sementes (que precisam de veneno exclusivo), donas dos agrotóxicos, dos adubos químicos e para fechar com chave de ouro, no final ainda vendem o antídoto (remédio) para curar as doenças que toda essa parafernália química causa. O agricultor se torna um escravo nesse sistema!!! De qualquer modo, é evidente na fala de muitos agricultores que o veneno aplicado na lavouras faz mal. Entretanto, eles preferem ganhar muito dinheiro a custa das doenças das pessoas. Parabéns! Só que não! Nós já perdemos pessoas da família com intoxicação de veneno e vou dizer, é muito triste. Principalmente, quando pessoas muito próximas morrem de câncer, possivelmente desencadeado pelo uso praticamente desenfreado – como li esses dias, que as vezes uma área de plantação de soja recebe 4 (quatro) aplicações de pulverização de veneno e ainda apresenta pragas –  de agrotóxicos na lavoura. É isso que vocês agricultores desejam para suas famílias? Porque se for assim, então é mais fácil sair a matar as pessoas atirando, pelo menos elas não sofrem morrendo aos poucos. Mas acho que ninguém quer se matar, a seus pais e irmãos, ou quer? É isso que está em jogo gente. É só pensar um pouquinho… Agrotóxico foi feito para matar! E sabe o que ainda é pior do que isso? Existem aqueles que tem consciência do mal que o veneno faz, e aí com a maior hipocrisia do mundo, cultivam espaços separados… um para consumo próprio e sem veneno. E o outro para venda, cheio de veneno e morte.

Em segundo lugar, quero questionar os agricultores em dois aspectos. Quanto produz um hectar de soja, milho, batata na agricultura que eles fazem derrubando floresta? Bom, imagino que essa resposta nós todos sabemos. Mas, vamos focar agora nas agroflorestas, só para constar, a produção com agrofloresta em média, é de pelo menos 30 toneladas por hectar, porque produzimos na horizontal e na vertical, e isso gera diversidade, junto com a floresta produzimos de tudo – jaca, abacate, milho, feijão, tomate, manga, abóbora, banana, cacau, batatas, galinhas, leite, queijo, café, medicinais, produtos madeiráveis, etc., etc., etc. A imagem abaixo, elaborada por Daniel Jorge Habib, ilustra quanto de área agroflorestal seria preciso para produzir alimento pro mundo.

Quanto produz uma agrofloresta

O segundo aspecto é sobre a qualidade da produção de alimento. Essa agricultura do agronegócio usa veneno. Veneno mata as pessoas como já foi dito! Temos estudos científicos comprovando doenças causadas pelo uso de agrotóxicos (Esse link http://migre.me/dR1E1 é do dia 15/03/12 e mostra o que acontece quando vocês usam veneno!!!). Sinceramente, só loucos para comer comida envenenada.

 

Claro que militamos pela natureza, porque sabemos que dela dependem a sobrevivência dos nossos filhos e próximas gerações. Se destruirmos tudo, aí não vai mais ter. A propósito, sei que vocês agricultores, na maioria das vezes cuidam da natureza e protegem o que dá, mas aí fica a pergunta: adianta dizer que tá cuidando da natureza e despejar litros de veneno que influenciam em toda a cadeia alimentar? Porque, como já dizia a agrônoma Anna Primavesi: “solo doente, planta doente, homem doente”. Essa é uma das nossas críticas…

IMG_3418Em contrapartida, como já salientamos anteriormente, existe um jeito simples de cultivar alimento que sim, dá para alimentar todo o mundo com menos área e mais alimento, sem depender do pacote tecnológico vendido por essas corporações de monopólio. Prestem atenção, a agricultura vai mudar, o futuro da agricultura está nas florestas. Quem for um pouco esperto vai sacar.

Sabemos que aí surgem os mitos, por exemplo, no caso do controle de pragas. Nosso sistema não tem pragas, ele é auto-regulado pela própria natureza, apesar da conversão agroecológica levar um bom tempo para acontecer, sobretudo, quando da ausência de uma forte guerra química. Outro mito, não há bosta que possa adubar a terra para esse tipo de produção, diziam uns. Primeiro que quase nem usamos a tal da bosta, nos usamos o adubo que a própria floresta produz, ali tem todos os nutrientes que precisamos para produzir. Foi sempre assim na natureza, o processo de regeneração e ciclagem de nutrientes. Sei que é difícil para os amigos agrônomos da velha guarda, e mesmo muitos eng. agrônomos novos entenderem isso, que é possível adubar assim com a energia da floresta. Mas acreditem, é sim!

Enfim, temos a impressão que estamos gastando tempo aqui explicando algo que não querem entender, porque não querem conhecer. Convido os amigos agricultores a conhecer, por exemplo, um sistema de agrofloresta! Estudar esse sistema e repensar com carinho no que nós humanos estamos fazendo aqui na terra. Porque nós somos co-criadores da natureza e dependemos dela para existir.

Muitos dizem que os tais ambientalistas estão em seus apartamentos e não sabem o que dizem, pois nós (que não nos consideramos ambientalistas, mas agricultores) achamos que precisa aproximar as duas realidades, a da cidade e do campo. No campo se fala e pensa uma coisa sobre a natureza, na cidade se fala e pensa outra. Nessa dicotomia, há sabedoria de ambos os lados. Afinal, todo mundo sabe alguma coisa e todo mundo desconhece alguma coisa. Então, ao invés de vir com sete pedras na mão contra os tais ambientalistas e vice-verça (pois aposto que todo mundo tem teto de vidro), porque não sair atrás de estratégias e alternativas que possam ser boas para as pessoas da cidade que dependem do que é produzido no campo para se alimentar, e sobretudo, das pessoas que vivem do campo possam ter uma vida digna, com saúde, renda e cuidado com a natureza e com as pessoas! Isso só não percebe que não quer.

araucáriaSem sombra de dúvidas a conversão agroecológica é capaz de suprir a demanda de produção, com um produto bonito para atender aos gostos do consumidor. Mas isso é nada para nós. Nós fazemos agricultura e o ser humano volta a pertencer a natureza, ser livre e autônomo, com soberania alimentar, porque produz de tudo, desde a galinha até o pé de alface. E fala mais, imagina só, conheço propriedades que em 10ha de agrofloresta se produz quase tudo que precisa para comer, o que não estiver produzindo, o amigo ou vizinho produz nesse sistema agroecológico, então existe a troco e espírito de solidariedade, nesse sentido, quase não se gasta com compras de mercado, sei lá, talvez um sal que falta. Bom, aí não precisa ir no banco pedir financiamento. As praga são vistas com outros olhos, como sendo parte do sistema. Isso quer dizer também que não precisa, não quer e não gasta com agrotóxicos. Não gasta com adubo, porque a floresta fornece todo adubo que precisa. Em outras palavras, não tem gastos para produzir e uma agrofloresta, se quiser, pode produzir tranquilamente 20 ton/hec/ano. Tudo ali é lucro! Sem contar que tenho produtos madeiráveis de todos os gostos, para construir uma casa ou um galpão, porque na concepção de uso sustentável da floresta, pode tirar madeira de lei. Isso ta na lei, que posso fazer uso X de madeira para autoconsumo, mais coleta de frutos e sementes. Esses são bons exemplos vistos hoje na Cooperafloresta e em outras propriedades agroecológicas.

Enfim, para quem teve coragem de ler até aqui, o que podemos dizer, é: Mudem, aos poucos, o modo de pensar, e vcs mudaram suas vidas e a de milhões de pessoas. Vale a pena! Para finalizar, nós vamos ficar aqui fazendo floresta, trabalhando na sombra e comendo bem. Sem precisar comprar insumos agrícolas e maquinaria pesada a custas de altos financiamentos e endividamentos. Além do mais, sabendo que os consumidores estão cada vez mais procurando nosso alimento de dentro da floresta porque é saudável e respeita a natureza. E sem essa conversinha de coitadinho do agricultor porque ele só destrói a natureza. Se fazer de vítima é o primeiro sintoma da doença. O agricultor não é vítima, mas responsável pelos seus atos.

E para quem quiser conhecer ou  aprender mais, estamos à disposição. Estamos aqui para ajudar os agricultores que querem ser ajudados. Nosso papel é aprender com os agricultores e trocar conhecimento, pois como já disse antes, todo mundo sabe alguma coisa e todo mundo desconhece outra! Desejo com isso que reflitam a respeito e quem sabe criam alternativas para trabalhar diferente.

A solução está no problema!

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2 thoughts on “Considerações a respeito da agricultura

  1. Muito legal esse texto Martin ! parabéns e sigamos em frente – firmes e fortes.

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