Agroecologia / Colônia Witmarsum / Coletividade / Consciência / Consumo Consciente / Meio Ambiente / Policultivo / Sustentabilidade

O perigo da semente

O relato a seguir é verídico e foi  adaptado apenas para fins literários.

DSC02170

Tudo começou com uma ideia que parecia inofensiva: A partir daquele dia, na pequena hortinha no fundo do quintal, eu deixaria as hortaliças completarem seu ciclo de vida. Em outras palavras, deixaria elas produzirem sementes. Esperava assim não precisar comprar mudas ou sementes com tanta frequência.

Eu não fazia ideia do que aconteceria depois disso.

No início fiquei fascinado, descobri flores que eu jamais tinha imaginado existirem, entrei em extase quando vi desabrochar a primeira flor da chicória, de um lilás exuberante ela passou a enfeitar a minha horta. As primeiras sementes vieram, amadureceram, foram colhidas e semeadas.

Ah se eu soubesse…

Tudo parecia bem, as mudinhas cresceram como esperado mas algo que eu não tinha previsto começou a acontecer: nem todas as sementes foram colhidas, algumas simplesmente se espalharam desordenadamente pela horta, caíram em canteiros que não lhes tinham sido destinados e foram levadas por pássaros para lugares ainda mais indevidos.

Acabei ficando com dó de arrancar as plantas, não achei que as consequências seriam tão grandes.

Com o passar dos meses fui perdendo o controle, a horta ficou bagunçada. Alface nascia do lado  do tomate, as cenouras brotavam por toda parte, framboesas e physalis cresciam ao pé de outras árvores e os canteiros de flores da minha mãe agora estavam infestados de comida.

Talvez eu devesse ter parado mas acabei me acostumando com a ideia e deixei a natureza seguir o seu curso.

Com o tempo não era mais apenas a bagunça, eu tinha um outro problema, a horta tinha se alastrado por todo o pátio. O pátio até que ficou bonito, começou a chamar a atenção, e para não fazer feio começamos a caprichar cada vez mais, eu não poderia admitir pros vizinhos que eu não estava no controle, comecei então, eu mesmo, a fazer canteiros.

Mais um problema. A produção ficou grande demais, e como todo mundo sabe, é pecado jogar comida fora. A solução, ou assim eu pensava, foi dar o excedente aos vizinhos. Ruibarbo para um, espinafre para o outro e em pouco tempo eu tinha as crianças dos vizinhos grudados na cerca pedindo morangos. Dias depois observei uma dessas crianças andar de um lado para o outro com uma enxada na mão, achando que aquilo era algo a ser copiado.

E não foi só isso, os vizinhos não entenderam nada. Ao invés de perceber que eu estava tentando me livrar das sobras eles ficaram felizes, vinham para a cerca conversar e insistiam em retribuír. Quando não era um convite para o café, um pacote de biscoito caseiro ou um pedaço de torta das frutas da minha horta, era um casaco que tava sobrando ou alguma outra coisa que eu talvez pudesse usar.

Para me livrar das folhas que já não serviam para consumo eu jogava elas por cima da cerca para as galinhas de um dos vizinhos. Em pouco tempo começaram a chegar os ovos para retribuir.

Um amigo resolveu agradecer doando esterco das suas vacas. Ovos valem mais do que restos de folhas, esterco mais do que as poucas verduras, logo, eu tenho que dar mais verduras, mas e depois? Ganho mais esterco, minha horta produz mais e eu tenho que achar outra pessoa para quem dar mais hortaliças.

Entrei em um ciclo vicioso. Cada vez mais comida, cada vez mais sorrisos, mais conversas e mais sementes. Já não preciso mais ir ao mercado comprar hortaliças, faz anos que eu ganho tanta roupa que não posso mais ir ao shoping comprar minhas próprias, passo tanto tempo na horta que mal sobra tempo para a internet, nem lembro quando foi a última vez que eu assisti televisão.

Sinto que eu estou perdendo o controle das coisas.

Curta nossa Fan Page no Facebook

Advertisements

74 thoughts on “O perigo da semente

  1. Pingback: O perigo da semente | Tudo Sobre Plantas

  2. Ah… eu quero que a semente dessa ideia se espalhe cada vez mais, germine e dê muitos e muitos frutos.

    • É verídico sim, e foi realmente algo que começou meio sem querer e foi tomando forma com o passar dos anos.

  3. Temos uma cama de minhoca, e nossa hortinha já está cheia de alface, rúcula, cenoura, beterraba, couve, almeirão, espinafre, batata, ervilha, vagem, tomate, couve-flor, jiló e brócoli.

  4. Que texto lindo! Eu cresci numa família que plantava hortas e aglutinava os vizinhos em torno dela. Bateu saudades da infância!

  5. estamos começando uma em aquidauana/ms, transformando área em desuso para produção de hortaliças, as sementes doadas, mão de obra de amigos, distribuição de excedentes….princípios da economia solidária?

    • Olá Simão, eu sou portuguesa e estou a viver em Aquidauana com meu marido e filho. Infelizmente não temos horta (vivemos junto à escola Cejar), mas temos um interesse muito grande em permacultura, economia solidária e iniciativas de transição. Adorávamos conhecer-vos e ao vosso espaço!
      Abraço, Inês

  6. qualquer espaço dá pra fazer . já estou nesse caminho,o que eu estou colhendo já esta sendo d+ pra mim, só falta eu ganhar um adubo pra melhorar.

    • Produza seu próprio adubo, é facílimo (um espaço reservado – buraco na terra, uma caixa grande ou outro – onde vai se colocando restos de comidas não temperadas, cascas de frutas, folhas secas ou não, poeiras domésticas ou do quintal. Por cima dessa, uma camada de terra, e por cima dessa outra camada de restos, e mais outra camada de terra… e assim até encher o buraco ou caixa bem grande. E, desde o começo, vá revolvendo tudo uma vez por semana, e molhando após revolver. Uns dois meses e terá o melhor “esterco” que possa haver. Pronto esse, é só ir espalhando essa terra adubada por cima mesmo da outra, mas melhor é revolver um pouco, se puder, ainda que apenas superficialmente. Em pouco tempo terá uma terra preta, onde tudo nascerá sozinho (terra compactada não favorece, afofe um pouco a terra).

  7. Caso verídico só esse cara mora em mundo virtual. Acho que ele jogou muito a mini fazenda que acabou escrevendo isso. Coitado, não faz ideia dos cuidados que precisa para uma cultura produzir bem.

    • Olá Davi, eu mais do que ninguém sei o quanto cuidado é necessário para uma horta produzir, um cultivo misto, não é um cultivo descuidado. Não sei ao certo o que é a mini fazenda, logo, não posso dizer nada a respeito.
      No mais, você está convidado a ver de perto e tirar suas próprias conclusões.
      Sobre viver no mundo virtual, onde mesmo você leu esse texto?

      • Ricardo, eu disse mundo virtual, mas seria imaginário. Não existe algo real como o cara escreve.
        Mini fazenda é um joguinho que, eu nunca joguei, mas conheço quem gosta, onde voce vai plantando, colhendo e comprando coisas. Vai aumentando a sua fazenda, mas tudo virtual.

      • Davi, o cara que escreve sou eu, e posso afirmar com total segurança que não existe nada nesse texto que saiu da minha imaginação. Eu gostaria muito de saber qual parte você acha que não é possível.

      • Amei seu texto.E tenho uma hortinha.Ocorre algo semelhante.Estou com mostarda no quintal inteiro,fico feliz e preservo….eu minhas ajudantes(cuidadoras de minha mãe) damos conta da produção……

  8. Minha horta são meus alunos… como se multiplicam…vários já são mestres melhores que eu!

  9. Amo esta ideia que é a verdadeira autossustentabilidade para todos. Já faço isto com tomates em vaso, alecrim,limão,penso que vou ter muito mais. É isso aí, é só dar o primeiro passo, não importa o tamanho da viagem, estamos aqui para isto mesmo!

  10. Ricardo, que historia bacana!!! Minha horta não fica em terra tão fértil, mas algumas sementes, fortes, persistentes, brotam “fora do lugar”. Amaranto e uma delas e deixa o jardim lindo.

    • Plantei os meus primeiros amarantos aqui esse mês também… quanto a terra fértil, eu morro num local conhecido por ter as piores terras do Paraná. Foram anos de trabalho e, tenho que admitir, várias frustrações, até a horta começar a produzir legal. No meu caso o divisor de água foi quando começamos a recolher resíduos orgânicos na comunidade e transformar em terra vegetal. Vale tudo: folhas, grama cortada, bora de café do Mac donnalds….

  11. Gostaria de fazer uma horta, mas meu quintal, está cheio de grama e eu não tenho ninguém para arrancá-la. tem alguma sugestão? Parabéns, amei o relato!

    • Eu recomendo uma invasão gradativa, comece tirando a grama em um cantinho e substituindo por um canteiro, pessoalmente acho muito mais interessante um trabalho gradativo, dessa forma o seu primeiro canteiro receberá mais atenção, uma adubação melhor e com isso o resultado e a animação acabam sendo melhores.

  12. Ricardo, você não entrou num ciclo vicioso. Você entrou num ciclo virtuoso. Salve as plantas!

  13. eu gostaria de saber a fonte primaria do texto. Voce pode nos dizer? Se foi veridico, gostaria de saber ao menos o local onde aconteceu. Grat0

    • O autor do texto sou eu e o local onde aconteceu é a Colônia Witmarsum, fica próxima de Curitiba.

  14. adorei o texto parabens ,e pena que nem todos pssaam faazer a mesma hortinhaa e compartilhar grata

  15. lindo texto, não sei porque alguem achou não ser possível, basta contar quantas sementes um mamão tem e plantar que dá pra encher um quarteirão de plantas.

  16. Descambou para o ESCAMBAU! Legal, adorei o texto. É isso mesmo que acontece! Eu também tenho minhas plantinhas e troco alimentos e flores com meus vizinhos.

  17. Muito legal, morro de invejinha branca rsrsrs no momento estou confinada num ape sem varanda, mas em breve, quem sabe? sinto falta de pisar na grama….. Bacana a iniciativa, coisa de gente do Bem. Precisamos de mais pessoas como voce nesse mundo, Ricardo. Meu sincero obrigada pela parte que vai tocar aos meus netos e bisnetos

  18. Oi Ricardo.
    Interessante a experiência!
    Vou te contar q fiz uma horta certa vez e colhi bastante coisa, enquanto eu cuidei; com água, terra, tirar mato etc. Ainda tinha o q colher, mas precisei me ausentar e ela ficou totalmente abandonada. Todos a consideram “morta”, muito mato, terra seca… mas ela ta lá. A maioria das plantas q parecem ser mato na verdade são sementes (isso está acontecendo agora!).
    Já temos 3 pitangueiras naturais q cresceram sem cuidados, só de jogar a semente.
    Adorei o texto, obrigada! Agora estou com medo q nasça alface, couve, cebolinha, salsinha, cenoura, etc por todos os cantos hahahahaha.
    Abraços!
    Silvia

  19. Já fizemos uma horta aqui em um terreno de fundo e tinhamos que doar ao amigos também,perdemos para o cimento. O espaço não era nosso.

    Lindo texto e experiência, posso compartilhar?

    • Perder para o cimento é triste mesmo, espero que você encontre um novo espaço em breve. E ficamos felizes em compartilhar.

  20. Até meus 21 anos nunca havia comprado verduras nem frutas em supermercado. Era tudo da nossa horta e pomar q tínhamos em um terreno de 20m x 50m. Certa vez alguém simplesmente jogou fora direto na terra um limão-bergamota. Depois de algum tempo vi uma touceirinha
    e percebi q eram inúmeras mudinhas de limoeiros. Arranquei a touceirinha e replantei-as com uma distância de uns 2m cada uma. E então eu tive um pomar de limoeiros. Outra vêz, minha mãe descascou batas inglesas e simplesmente atirou as cascas na terra. Depois de uns tempos percebi umas plantinhas diferentes por lá. Fui ver era um batatal…O mesmo foi feito com tomtes que haviam passado do ponto. Quando me dei conta havia tantos tomateiros carregados que não havia baldes suficientes para colhê-los. Isto não é nenhuma fantasia. A natureza é algo fantástico. E nem precisa de muitos cuidados não. Xuxu, batata-doce, morangas o que for que se coloque na terra dá e em abundância. Até preguiçoso pode ter a sua comida plantada por ele prórpio! Adoro plantar e colher. É algo que alivia a cabeça de qualquer tensão. Quem dispõe de um pedacinho que seja de terra deve aproveitar.

  21. Esta e a verdadeira historia da corrente do Bem.
    Seria tão maravilhoso, se acontecessem casos veridicos, deste com frequencia, e tornasse o virus que contagiasse todo planeta

  22. Parafraseado Fernando Pessoa, a horta é Deus, as flores são Deus. Mas se a horta é Deus, por que então a chamo horta? Se Deus se fez para eu O conhecer como hortas e flores é porque ele quer que eu O conheça como flores e hortas. Então eu obedeço-Lhe e minha vida é uma eterna missa, mas adoro-O com os olhos, com os ouvidos, com o nariz, com a mão e com a boca…

  23. Ricardo, acho que vc nem faz idéia de como seu texto singelo e direto entra no coração das pessoas. Olha, ficar sem ver tv e net, são coisas que muita gente almeja hoje em dia. Sabe, eu tb tenho um espaço que posso transformar numa bela horta se deixar a preguiça de lado, pois estou ultimamente com dores (idade dodói). Vamos esperar que não fique apenas nesta resposta. um grande abraço e parabéns pelas sementes de amizade e confraternização que plantou

  24. Pingback: O veneno que está no prato | passeiegostei

    • Olá Celina, dá gosto ler estes pequenos textos, coragem para continuar. Feliz Ano Novo pra ti e tua linda horta

  25. Essa é uma atitude bela que gerou exelentes resultados. Mas podemos fazer algo diferente ao próximo a cada dia,que veremos as sementes germinarem…

  26. Parabéns, descobriu os benefícios do capitalismo, também conhecido como economia de mercado, também conhecido como sistema de livre troca de bens e serviços entre indivíduos com benefício mútuo.

  27. Obrigado por descrever tão bem a minha realidade…Está acontecendo comigo justamente isso. Comecei por deixar as alfaces produzirem sementes, retirando apenas algumas folhas para comer, como se faz com as couves. Depois fiz o mesmo com a erva doce, com a salsa, etc. Uma frutinha de Physalis que joguei num vaso rendeu muitas mudinhas lindas. Os tomates nascem por si, nem preciso plantar, e produzem muito. Distribuo mudas, sementes e todo o excedente da produção de meu quintal minúsculo. Uso até as paredes para pendurar garrafas pet com alfaces e salsa. Tenho melancia crescendo pendurada na cerca. Tenho plantadas Ora-Pro-Nobis, Moringa Oleífera, Bertalha, Beldroegas, Dente-de-leão…divulgo entre meus vizinhos estas comestíveis pouco conhecidas. Incrível a semelhança. Também jogo folhas por cima da cerca para as galinhas e gansos do vizinho…hehe…Fiquei muito feliz com este lindo artigo. Gratidão.

  28. Estou realmente comovido e sensibilizado, pelo que estou a ponderar seguir sua iniciativa e exemplo humilde e rico de sustentabilidade. Que Deus lhe abençoe rica e poderosamente. Bem haja

  29. Amei seu texto e é meu sonho de vida. Espero brevemente passar por esses ‘perigos’. Sou professora de escola pública e estou tentando cultivar essa ideia de horta comunitária na escola (com trocadilho, por favor). E desejo aproveitar seu texto para fazer um trabalho interdisciplinar. Poderia imprimir seu texto e pedir aos professores de português para usá-lo em sala de aula? Posso publicar no meu site, que estou iniciando? Citando o autor, evidentemente. E muito obrigada pelo seu texto que é uma verdadeira poesia. Sou de Maricá, RJ. Um grande abraço.

    • Olá Rosane, o texto é seu, para fazer com ele o que bem entender, usar em sala, trabalhar, publicar, fico feliz em poder semear essa mensagem. Espero que os seus professores de português não acabem descobrindo que eu sou muito mais agricultor do que escritor… hehehe

      Se precisar de alguma coisa, estamos implantando um projeto em uma escola da região nesse momento, não é a primeira com a qual trabalhamos, portanto, quando precisar de dicas fique a vontade para manter contato.

  30. Pingback: Os perigos das Sementes | ARCA DANIEL

  31. Já vivo isso no bairro onde moro; parece uma comunidade… Dia que aparece vizinho com um molho enorme de couve, tomate, salsa, cebolinha. Outro dia, abrimos a porta e demos de cara com uma jaca enorme…
    A história de jogar a couve e receber ovos tem muito por aqui… Recanto dos Lagos, Juiz de Fora – MG.

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s