Agronegócio / Agrotóxico / Biodiversidade / Consciência / Saúde

A sem graça agricultura industrial

Fonte: Permaculture News – Tradução livre: M. E.

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A nossa relação com a terra mudou fundamentalmente quando começamos a praticar a agricultura há cerca de dez mil anos atrás. A transição de nômades caçadores e coletores para a vida dos colonos agricultores, permitiu a evolução de grandes civilizações, e o crescimento das distintas culturas humanas. A agricultura tornou possível o aumento crescente da população humana, o que por sua vez, criou a necessidade de mais agricultura, e da relação cíclica atribuída a ambos, influenciando uma maior pressão sobre o meio ambiente. Civilizações antigas sucumbiram quando ultrapassaram a capacidade de carga e esgotaram sua base de recursos. Outras civilizações surgiram em outros lugares e/ou ocupando o lugar daquela que desapareceu. No entanto, para a maior parte do crescimento contínuo dessas civilizações, foi preciso extrair milhões de anos de armazenamento de energia. Em seguida, pelo curto periodo de um século, surge a revolução industrial,  e ainda a revolução verde, permitindo uma nova visão e maior exploração dos recursos da terra.

Nos últimos dois séculos, a população mundial deu um salto gigantesco, passando a ter um bilhão a mais de pessoas. A mecanização, o uso de combustíveis fósseis, e avanço tecnológico, a criação de estruturas sociais e econômicas sem precedentes na história da humanidade trouxe uma mudança radical na forma como os seres humanos organizam suas vidas. O estilo de vida agrário foi abandonado para o estilo de vida urbano e hoje, pela primeira vez na história da humanidade, há mais pessoas vivendo em cidades do que nas áreas rurais. Essas mudanças levaram ao deslocamento da produção de alimentos em nível individual, local, e da comunidade; a produção de alimentos passou a ser terceirizada para empresas multinacionais e grandes agroindústrias. A maior parte da população humana hoje é formada por consumidores e não produtores, e totalmente dependente da economia de mercado global para ganhar o pão de cada dia. Esse distanciamento criou uma crise de consciência sobre como e de onde vem a nossa comida, e o verdadeiro custo de comer. Já faz algum tempo que existem uma série de preocupações sobre nossas práticas agrícolas e consumo de alimentos, mas só muito recentemente estas preocupações tornaram-se um tema com discurso sério na esfera pública. Há um argumento crescente de que a revolução verde foi, de fato, qualquer coisa, mas não verde, e que o modelo industrial de agricultura não é apenas insustentável, mas é realmente uma das maiores ameaças para a sobrevivência humana. Os proponentes da agricultura industrial responderam igualmente alegando que o método deles é o melhor, mais eficiente, e que é a única esperança de alimentar uma população em crescimento exponencial em um mundo de mudanças. Neste artigo, é passado a limpo os principais argumentos usados a favor da agricultura industrial e apontando o que a agricultura industrial realmente é.

O principal argumento para a aplicação da agricultura industrial é que a produção em escala é necessário para suportar o aumento da população mundial, e isso só pode ser conseguido por meio de monoculturas extensas, aumento da mecanização, o uso de máquinas pesadas, fertilizantes químicos, e um amplo espectro de agrotóxicos, combinados com novas inovações científicas, tais como bioengenharia. A visão predominante é que o emprego destes métodos convencionais é a maneira mais eficiente de produzir alimentos e torná-lo disponível para o público em geral, a um custo barato. Os métodos alternativos são regularmente difamados como economicamente ineficiente e ineficaz, se não quando completamente inviável. Há uma suposição de que as coisas estão funcionando bem, e desde que tenham trabalhado no passado desse modo, não há razão para suspeitar de que não devem continuar a fazê-lo no futuro. Sempre que quaisquer preocupações surgem sobre a solidez dessa suposição, eles geralmente são varridos para debaixo do tapete com promessas de maiores ajustes tecnológicos e milagres científicos. É uma popular – quase religiosa – crença de que a ciência pode e vai resolver todos os problemas da humanidade.

Enquanto as monoculturas podem parecer impressionantes à primeira vista, em termos de tamanho e escala da operação, é uma aberração ecológica, que não pode sustentar e apoiar-se como um sistema agrícola adequado por ser totalmente dependente de fontes externas de energia. Já os sistemas naturais, dependem da diversidade para funcionar como um todo autorregulado. Se olharmos para uma floresta natural, ou qualquer outro ecossistema intacto, não vamos encontrar espécies únicas de flora e fauna que dominam em grandes áreas. A diversidade é um dos indicadores principais de um ecossistema saudável, e diante desse padrão da natureza, a prática de monocultura poderia ser comparado a um paciente que depende da muleta para andar. Ao contrário dos sistemas agrícolas convencionais, que são apoiados por insumos artificiais e energias externas, os ecossistemas são completamente autossuficiente. Além disso, o cultivo em monocultura requer uma grande área do espaço, o que é criado pelo corte de florestas, nivelando colinas, e de outra forma invadindo os ecossistemas naturais que fornecem serviços vitais para todas as formas de vida.

A gestão de grandes fazendas monoculturais é inerentemente ineficiente. Todas as fases da operação, desde a preparação do solo para o plantio até a colheita da safra, requer o uso intensivo de energia de máquinas pesadas, que causam danos como compactação e a degradação do solo. A prática da lavoura, especialmente aração profunda com maquinaria pesada, leva a uma rápida perda de solo e diminuição da fertilidade. O problema da erosão é ainda agravado pela irrigação, a agricultura em encostas, e deixando o campo livre após a colheita, gerando a erosão eólica e hídrica. O Dust Bowl da década de 1930 foi o resultado de tais práticas agrícolas pobres, e resultou em centenas de toneladas de perda de solo – para não mencionar a grande devastação humana que causou. O solo é a base da agricultura, e qualquer sistema que não valorizá-lo como tal, não pode ser descrito como outra coisa, além de autodestrutivo. Não é por acaso, que o modelo industrial de agricultura desenvolvido em grande parte nos climas temperados, ricos em solos profundos, foi possível durante anos de cultivo de exploração. No entanto, um olhar para a taxa de perda de solo, como resultado da agricultura em comparação com a taxa em que o solo é reabastecido naturalmente, revela a insustentabilidade matemática do projeto. Os cientistas estimam que o solo é construído “em cerca de 2-4 ton / ha por ano como terra vegetal não compactado em decomposição continua, mas a agricultura convencional retira uma taxa de 40-500 ton / ha por ano ao cultivar e preparo o solo.

A agricultura industrial também é fortemente dependente de fertilizantes químicos à base de combustíveis fósseis, o que dá origem a uma série de outras preocupações graves. O uso de combustíveis fósseis para fabricar estes fertilizantes contribui para a energia total contida no produto final, e a ineficiência do processo global. De acordo com um estudo publicado pela Universidade de Nova York, leva-se cerca de dez calorias de combustíveis fósseis para produzir uma caloria de alimento industrializado. Além das preocupações com a crise energética iminente – a insustentabilidade do uso de combustíveis fósseis – as consequências ambientais da utilização de fertilizantes sintéticos é motivo de preocupação legítima e imediata. Fertilizantes sintéticos são solúveis em água, e são sugados pelo solo por meio da irrigação e evento de chuva, até chegar a água subterrânea, poluindo fontes de água potável, o que representa uma ameaça significativa para a saúde humana. É obvio que o dano é muito maior nos rios, especialmente para a vida marinha, porque os fertilizantes são aplicados na planta, vão para o solo, depois passam pelos rios e, finalmente, para os oceanos, deixando para trás um rastro tóxico de morte e destruição. É claro que a poluição não termina aí, e continua voltando à fonte – nós – afinal a toxicidade é biologicamente acumulada até a cadeia alimentar de nossas mesas de jantar. Os fertilizantes químicos também destroem a fertilidade natural do solo, matando a biologia do solo e exigindo a aplicação de mais e mais fertilizantes. Assim como a vida do solo entra em colapso, o mesmo acontece com a estrutura do solo, criando condições adversas para os micro-organismos benéficos. As lacunas deixadas para trás são rapidamente tomadas pelas pragas de plantas; e isso leva ao próximo tópico sobre agrotóxicos.

A perturbação da vida e estrutura do solo promove um ambiente propício para as ervas daninhas e pragas proliferarem livremente. As plantas quimicamente fertilizadas, devido à falta de nutrição adequada, tornam-se cada vez mais suscetíveis a ataques de pragas. Não há nada de intrinsecamente ruim sobre pragas e ervas daninhas; ambos são mecanismos da natureza para criar equilíbrio e reparar as paisagens degradadas. Em vez de reconhecer a origem destes problemas, os agricultores – incentivados grosseiramente por empresas químicas – olham as plantas daninhas como inimigos, e reagem aplicando herbicidas e pesticidas. Lutar contra a natureza é uma causa perdida. Assim, essas ervas daninhas e pragas evoluem rapidamente tornando-se resistentes aos agrotóxicos, e surgindo então super-ervas daninhas e super pragas, exigindo venenos mais potentes e mais tóxicos. Isto cria um ciclo violento de abuso, aonde a natureza não consegue se recuperar, e o problema é exacerbado pela aplicação contínua e crescente de venenos. Os efeitos destes agrotóxicos, por outro lado, não se limitam à espécie alvo, e têm efeitos a longo prazo sobre outras formas de vida; a crise da população das abelhas em colapso, hoje amplamente reconhecido na comunidade científica, é o resultado infalível do uso de agrotóxicos, sendo apenas mais um exemplo. O perigo que os agrotóxicos representam para a saúde humana é um assunto espinhoso, e é suficiente dizer que envenenamos nossa comida, e essa não é uma boa receita para a saúde humana.

Os problemas com a agricultura industrial são agravados pelas alterações climáticas, escassez de água e desertificação. A indústria tem respondido a estes desafios com promessas de um futuro brilhante em forma de bioengenharia e modificação genética, em vez de reconhecer estas questões como o que são – o feedback da natureza sobre as impactantes atividades humanas. Apesar da novidade destas tecnologias, não há nenhuma evidência substancial quanto à sua segurança e eficácia. Pelo contrário, a maioria dos cientistas concorda que estas tecnologias são muito novas, e não o suficiente para poder ser lançado na ecologia do meio ambiente. De fato, muitos cientistas, embora suas vozes não são ouvidas na grande mídia, fortemente advertem contra essas tecnologias, e acreditam que o dano potencial supera de longe quaisquer benefícios percebidos. Enquanto esperamos a comunidade científica chegar a um consenso sobre o assunto vale a pena examinar a natureza no âmbito da indústria e sua relação com a Monsanto.

Monsanto, originalmente uma empresa de produtos químicos, é uma empresa multinacional com o maior controle sobre o setor agrícola ao redor do globo terrestre. A empresa tem um fundo colorido, a partir de sua participação no Projeto Manhattan à sua longa lista de produtos proibidos no passado, como o Agente Laranja, usado durante a Guerra do Vietnã, PCBs e DDT. É agora do conhecimento público que a Monsanto sabia dos efeitos adversos de muitos destes produtos, mas suprimiu as descobertas científicas durante anos. O nome é sinônimo de Monsanto Roundup, herbicida, que apesar de ser um dos seus produtos mais vendidos, é inerentemente defeituoso porque não discrimina as espécies-alvo das espécies desejadas. A fim de compensar seu mau produto, a Monsanto começou o projeto de modificação genética para criar “Roundup Ready”, as culturas resistentes a herbicidas. Nas últimas décadas Monsanto adquiriu inúmeras pequenas e grandes empresas de sementes, tornando-se a maior empresa do setor. A modificação genética agora lhes permite patentear suas sementes, e forçar os agricultores a comprar as sementes em cada temporada, em vez de guardar sementes como tem sido feito nos últimos dez mil anos. Essa lei absurda que permite o patenteamento da vida não é reconhecida a nível mundial, e de forma a contornar o problema da aplicação legal no exterior, a Monsanto até criou ‘Terminator’ Seeds que é auto-destrutivo.

Em casa, a Monsanto tem estado em guerra constante com os pequenos agricultores, os assediando com ações judiciais, e colocando muitos para fora do negócio sob o pretexto de violação de patente. O único crime cometido por esses agricultores é ser vizinho de fazendas onde as culturas de OGM da Monsanto são cultivadas, que contaminam inevitavelmente suas culturas.

Este tipo de comportamento não é exclusivo da Monsanto, e outros no negócio, como a Syngenta, têm vindo a fazer a mesma coisa. O fundo é a natureza da indústria – o agronegócio – dado o seu histórico e comportamento presente, é motivo para o grave ceticismo sobre sua agenda, e seria nada menos do que a loucura entregar o futuro do sustento humano a essas empresas.

O problema com a agricultura industrial é fundamentalmente um problema de visão de mundo. Destina-se a dominar a natureza, vendo-a como uma máquina gigante. Não reconhece a natureza como um organismo vivo em que todos nós fazemos parte; e que quando machucamos a natureza, inevitavelmente saímos ferimos. A agricultura industrial como um sistema de gestão é essencialmente masculino, bélico e agressivo. A sua solução de gerenciamento é matar a vida, seja por meio de agrotóxicos ou lavoura em monocultura e florestas de corte raso. Tem pouca ou nenhuma consideração pelos princípios ecológicos. Ao tentar aplicar um paradigma econômico equivocado sobre a natureza, a agricultura industrial destrói sua base de recursos primários, a própria natureza. O problema da agricultura industrial não é um problema isolado, e está profundamente enraizado na nossa maneira de pensar sobre a própria vida, e nosso propósito e lugar nesta terra.

Conforme caminhamos para um futuro de crises socioambientais, a questão da comida vai se tornar uma das questões mais importantes do nosso tempo, junto com a questão da água e outros recursos básicos. A agricultura industrial tem sido o principal culpado em trazer a tona esses problemas, e provou ser destrutivo e insustentável. A fim de criar um planeta mais saudável e um futuro mais sustentável, devemos fazer a transição para um modelo ecológico de agricultura que tem uma visão holística para a produção de alimentos e de contabilização da energia, não apenas de natureza econômica. O caminho a seguir é realinhar a relação do ser humano com a natureza, e começar a cocriar com ela e não contra ela.

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